Lembro-me de um dia em que carregava Gael nos braços para fazê-lo dormir ainda bebê, muito antes do diagnóstico de autismo. Eu estava exausta. Tenho diagnóstico de TDAH e, recentemente, após um teste neurológico com a Dra. Leninha Wagner, fui diagnosticada também com autismo e altas habilidades, o que configura dupla excepcionalidade.
O que isso tem a ver? Bom, sou agitada, me canso rapidamente, tenho pensamento acelerado e distúrbios do sono. Portanto, o trabalho de autocontrole para cuidar das demandas do Gael, principalmente no puerpério, com noites sem dormir, foi extremamente desafiador para mim. Mas lembro que, naquele dia, fiz uma escolha profunda: estava prestes a explodir pelo cansaço quando, de repente, algo tocou profundamente meu coração ao olhar para meu filho. Afinal, eu já havia perdido outros dois bebês durante a gestação; Gael foi o sobrevivente de uma gestação trigemelar.
Naquele momento, fiz um pacto comigo mesma: estava pronta para iniciar uma maternidade diferente de tudo que havia vivenciado. Eu tinha um compromisso com Deus, que me deu a chance de ter meu filho sobrevivente. E foi nesse instante que o Método 1:1 começou a nascer, sem que eu soubesse. Apenas dois anos depois, descobriria que Gael era autista.
O Que é Comunicação Positiva?
A comunicação positiva vai muito além da linguagem verbal. Trata-se de um processo estruturado e estratégico que visa otimizar a interação interpessoal por meio de abordagens mais respeitosas e neurocompatíveis. Fundamenta-se na substituição de comandos autoritários por sugestões envolventes, promovendo a autonomia e a flexibilidade cognitiva.
Por exemplo, em vez de dizer “Filho, não faça isso!”, experimente “Filho, que tal fazermos dessa forma?”. Se houver resistência para o banho, substitua uma ordem impositiva como “Você tem que tomar banho agora, estou mandando!” por algo lúdico, como “Filho, vamos entrar naquela cachoeira mágica dentro do chuveiro? Tem uma surpresa esperando por você!”. Criar uma narrativa sobre um gnomo da cachoeira ou um personagem do interesse da criança pode tornar a experiência mais agradável e cooperativa. Além disso, o uso de reforçadores de interesse potencializa o engajamento: “Vamos dar banho no Batman ou no seu carrinho? Humm, acho que ele está precisando de um banho, está com chulé!”.
A comunicação não violenta exige mais planejamento e estratégia do que uma simples ordem, tornando essencial a organização. Criar lembretes no celular para atividades diárias e estabelecer uma rotina estruturada favorecem a implementação dessa abordagem. Evidências científicas demonstram que esse método é mais eficaz na resolução de demandas cotidianas. Em momentos de exaltação, os níveis de cortisol – hormônio do estresse – aumentam, tornando a interação mais conflituosa e menos produtiva. Já ao aplicar a comunicação positiva com estratégia e inteligência emocional, o processo se torna mais eficiente, e as crianças passam a construir conexões afetivas mais profundas com seus cuidadores. Com o tempo, a adesão espontânea às propostas dos adultos aumenta devido ao fortalecimento do vínculo estabelecido.
Esse vínculo, quando bem trabalhado no ambiente familiar, também potencializa os efeitos das terapias clínicas, especialmente para crianças autistas, pois gera maior motivação e segurança. O adulto se torna um reforçador natural do comportamento infantil, pois a criança sente-se validada e acolhida, sem perceber que está sendo conduzida por uma técnica estruturada. Esse processo não deve ser confundido com “mimo”, mas entendido como uma metodologia fundamentada no desenvolvimento infantil e na neurociência aplicada à educação e parentalidade.
Se seu filho apresenta desafios para realizar tarefas como tomar banho ou calçar os sapatos, é ideal iniciar essa abordagem nos primeiros anos de vida, favorecendo a internalização natural das rotinas. Recursos como alarmes sonoros, músicas favoritas e lembretes sutis podem auxiliar na transição entre atividades. Embora seja possível reverter dificuldades comportamentais em crianças mais velhas, o processo torna-se mais trabalhoso do que a implementação precoce de uma comunicação estruturada e respeitosa.
Construindo uma Relação Respeitosa
Trabalhar a habilidade de se comunicar de forma gentil e humanizada é um processo no qual todos saem ganhando. É fundamental aprender a respeitar o tempo de resposta da criança autista, pois ela demora para processar a informação recebida. Por isso, a tolerância é a chave do sucesso. Muitas vezes, nós mesmos não fomos criados dessa maneira, então é necessário romper ciclos e crenças limitantes para dar o primeiro passo.
Tenho colhido resultados incríveis com Gael. Meu filho já teve muitas crises e ainda apresenta bastante rigidez cognitiva, mas a técnica utilizada para manejar essas situações é sempre respeitosa e criativa, independentemente do contexto. Eu mesma preparo minhas Analistas do Comportamento em ambientes naturais (ATS), sempre com supervisão de psicólogas, mas adaptadas ao meu Método 1:1. Nunca precisei gritar, ofender, reprimir ou bater para que meu filho tivesse os avanços que teve. Gael se tornou uma criança amável, que aprendeu a respeitar através do exemplo. Ele não tinha comunicação funcional até os cinco anos, mas, através do Método 1:1 e do uso de reforçadores positivos adequados ao perfil dele, evoluiu significativamente.
O Papel da Família na Comunicação Positiva
Sabemos que nem sempre todos os cuidadores ou familiares estão alinhados e compreendem as demandas do autismo. No entanto, se ao menos uma ou duas pessoas conseguirem estabelecer essa base de comunicação positiva, eliminando qualquer tipo de ato violento, a criança já terá um ambiente mais favorável para seu desenvolvimento.
A comunicação não violenta é uma escolha diária e um aprendizado contínuo. Se você deseja saber mais sobre esse método, acompanhe minhas publicações, onde compartilho minha experiência e os resultados do Método 1:1.

Anna Flávia Camargo de Castro
Seja bem-vindo à minha coluna sobre maternidade atípica. Sou mãe de Gael, de 7 anos, autista de suporte 1, com hiperlexia e Altas Habilidades. Minha jornada começou com o diagnóstico de autismo do meu filho, sobrevivente de uma gestação trigemelar. Tornar-me assistente terapêutica e aplicadora ABA foi essencial para ajudá-lo. Nesta coluna, compartilho reflexões, desafios e aprendizados sobre maternidade atípica, usando meu “Método 1:1”, que inclui informações sobre nutrição, tratamentos integrativos, terapias multidisciplinares, manejo em ambientes naturais
e criação positiva.
@annaflaviacamargo_