O consumo de adoçantes na gestação e na infância tem sido amplamente debatido devido aos seus possíveis impactos na saúde materno-infantil. Os adoçantes são substâncias utilizadas para substituir o açúcar e reduzir a ingestão calórica, sendo divididos em naturais e artificiais. Embora muitas dessas substâncias sejam consideradas seguras por órgãos regulatórios, estudos apontam possíveis efeitos adversos, especialmente em relação à microbiota intestinal e ao metabolismo.
Adoçantes Naturais
Os adoçantes naturais são derivados de fontes vegetais e geralmente possuem um perfil mais seguro para o consumo. Os principais incluem:
- Estévia: Um dos adoçantes naturais mais utilizados, possui poder adoçante superior ao da sacarose e não contém calorias. Estudos indicam que seu uso é seguro tanto na gestação quanto na infância, sem efeitos adversos conhecidos em doses adequadas.
- Eritritol: Um poliol encontrado em frutas e vegetais, tem baixo impacto na glicemia e é bem tolerado, mas pode causar desconforto gastrointestinal em doses elevadas.
- Xilitol, Sorbitol e Manitol: São álcoois de açúcar frequentemente utilizados em produtos dietéticos. Apesar de sua segurança geral, podem causar diarreia quando consumidos em excesso.
Adoçantes Artificiais
Os adoçantes artificiais são compostos sintéticos desenvolvidos para substituir o açúcar com baixo ou nenhum valor calórico. Alguns dos mais comuns são:
- Aspartame: Amplamente utilizado em produtos diet, é seguro para a maioria das pessoas, exceto para aquelas com fenilcetonúria (PKU). Estudos sugerem que, em doses adequadas, não há efeitos adversos relevantes na gestação e na infância.
- Sucralose: Produzida a partir da modificação química da sacarose, é estável ao calor e frequentemente encontrada em alimentos industrializados. Não há evidências de que cause efeitos prejudiciais durante a gestação ou infância em doses controladas.
- Sacarina: Embora seja um dos adoçantes mais antigos, seu uso na gestação é controverso, pois pode atravessar a placenta e se acumular nos tecidos fetais.
- Ciclamato: Baniu-se seu uso nos Estados Unidos devido a suspeitas de carcinogenicidade, mas continua sendo utilizado em alguns países, incluindo o Brasil.
Quadro com os principais adoçantes e suas respectivas Ingestões Diárias Aceitáveis (IDA) estabelecidas por órgãos como a ANVISA e a OMS, incluindo recomendações para crianças e gestantes.
Adoçante | IDA (mg/kg de peso corporal/dia) | Permitido para Crianças? | Seguro para Gestantes? | Observações |
Aspartame | 40 mg/kg | Sim (com moderação) | Sim (exceto PKU) | Contraindicado para portadores de fenilcetonúria (PKU). |
Sucralose | 5 mg/kg | Sim | Sim | Estável ao calor, amplamente utilizada em alimentos processados. |
Sacarina | 5 mg/kg | Não recomendado | Uso controverso | Pode atravessar a placenta; uso na gestação deve ser cauteloso. |
Ciclamato | 11 mg/kg | Não recomendado | Não recomendado | Banido em alguns países devido a suspeitas de aumento do risco de câncer. |
Estévia | 4 mg/kg | Sim | Sim | Adoçante natural extraído da planta Stevia rebaudiana. |
Eritritol | Não há limite específico | Sim | Sim | Geralmente bem tolerado, mas pode causar desconforto gastrointestinal em excesso. |
Xilitol | 50 g/dia | Sim (com moderação) | Sim | Em grandes quantidades pode ter efeito laxativo. |
Sorbitol | 50 g/dia | Sim (com moderação) | Sim | Pode causar distensão abdominal e diarreia osmótica em excesso. |
Segurança dos Adoçantes na Gestação e Infância
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelecem limites diários aceitáveis (IDA) para o consumo de adoçantes, garantindo sua segurança quando utilizados de maneira moderada. No entanto, há crescente preocupação com os efeitos metabólicos e hormonais desses compostos, especialmente em crianças, cujo metabolismo ainda está em desenvolvimento.
Pesquisas recentes indicam que o uso excessivo de adoçantes artificiais pode influenciar a percepção do sabor doce e afetar a regulação do apetite, aumentando a predisposição ao consumo de alimentos ultraprocessados e contribuindo para o risco de obesidade infantil. Na gestação, o consumo frequente de adoçantes artificiais pode estar associado a um maior risco de resistência à insulina e alterações no metabolismo fetal.
Relação com a Microbiota Intestinal
Um dos pontos mais preocupantes em relação aos adoçantes artificiais é seu impacto na microbiota intestinal. Estudos sugerem que compostos como a sucralose e o aspartame podem alterar a composição das bactérias intestinais, promovendo disbiose – um desequilíbrio da flora intestinal associado a inflamação crônica, aumento da permeabilidade intestinal e disfunções metabólicas.
Além disso, pesquisas indicam que a alteração da microbiota pode influenciar a produção de ácidos graxos de cadeia curta, fundamentais para a regulação do metabolismo energético e da imunidade. Isso pode aumentar o risco de distúrbios metabólicos, como obesidade e resistência à insulina, especialmente em crianças expostas a adoçantes desde a infância.
Considerações Finais
Embora alguns adoçantes sejam considerados seguros quando consumidos dentro dos limites recomendados, o uso indiscriminado, especialmente na gestação e na infância, pode trazer riscos à saúde. O impacto dos adoçantes na microbiota intestinal e no metabolismo reforça a necessidade de moderação no consumo desses produtos.
Dessa forma, a melhor estratégia é priorizar uma alimentação natural e equilibrada, reduzindo ao máximo a necessidade de adoçantes e incentivando o consumo de alimentos in natura. A substituição do açúcar deve ser feita com cautela, sempre considerando as recomendações médicas e nutricionais para garantir um desenvolvimento saudável.

Formado pela Faculdade de Medicina da UNAERP – Universidade de Ribeirão Preto. Especialista em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia – ABRAN (RQE 69663) e Área de Atuação em Nutrição Parenteral e Enteral pela BRASPEN. Preceptor da Residência de Nutrologia do Hospital IGESP – São Paulo. Capacitação em obesidade e Lifestyle medicine pela Havard Medical School.
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